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Psicologia Clínica & Fertilidade

Infertilidade e PMA: porque é que o acompanhamento psicológico faz diferença

26 Jul, 2026
Dr.ª Sandra Água Dias
Infertilidade e PMA: porque é que o acompanhamento psicológico faz diferença
Dr.ª Sandra Água Dias
Autoria

Dr.ª Sandra Água Dias

Artigo escrito pela Dr.ª Sandra Água Dias.

Existe uma narrativa muito instalada sobre a infertilidade: a de que é, antes de mais, um problema médico a resolver. É compreensível, a medicina reprodutiva avançou de forma extraordinária nas últimas décadas, e a Procriação Medicamente Assistida tornou possível o que antes não o era. Mas há uma parte da experiência que não cabe numa ecografia, num resultado laboratorial ou num protocolo de estimulação. É a vivência emocional silenciosa, que se revela tão desgastante quanto os procedimentos físicos.

O que os dados dizem sobre Portugal

O Estudo Afrodite (2009), o primeiro e único estudo epidemiológico sobre infertilidade realizado em Portugal, concluiu que entre 260 a 290 mil casais portugueses sofrem de infertilidade, afetando 9 a 10% dos casais ao longo da vida. Os seus números são hoje considerados conservadores, uma vez que, desde a realização do estudo, a idade média do nascimento do primeiro filho subiu para os 30,2 anos e a taxa de fecundidade desceu para 1,44 filhos por mulher, dois fatores que contribuem diretamente para o aumento da prevalência da infertilidade.

Apesar desta realidade, o tema permanece envolto em estigma social, especialmente em países latinos como Portugal, onde ainda é tabu falar abertamente sobre dificuldades em engravidar. Este silêncio tem consequências práticas e o recurso a apoio psicológico continua a ser raro, o que representa uma das maiores lacunas no acompanhamento destas situações no nosso país.

O que muda numa pessoa e num casal durante a PMA

O tratamento de PMA impõe uma rotina que, por si só, desgasta a saúde mental. O processo é focado em métricas e resultados, transformando o corpo, em especial o feminino, no centro de todas as atenções médicas. São semanas divididas entre consultas, análises ao sangue, ecografias e injeções diárias, onde o calendário da clínica passa a governar a vida pessoal.

Quem passa por este percurso reconhece os momentos de maior solidão. A angústia dos dias que se seguem a uma transferência de embrião, a fixação no telemóvel à espera de uma chamada ou a sensação permanente de viver com a vida em suspenso. Torna-se impossível planear umas férias ou um jantar com amigos, porque tudo fica dependente de um valor laboratorial ou de uma data que pode alterar-se a qualquer momento.

Esta perda de controlo estende-se à identidade. Para a maioria das pessoas, ter filhos era visto como um passo natural da vida e não como um projeto sujeito a falhas. Quando esta expectativa é interrompida, surge um questionamento profundo sobre a própria identidade e o sentido de futuro, muitas vezes acompanhado de sentimentos de vergonha e de um isolamento progressivo. O corpo passa a ser monitorizado ao detalhe, e cada sintoma físico é interpretado com muita ansiedade.

A infertilidade como um luto ambíguo

A infertilidade é também um luto ambíguo. Não tem forma visível, não tem velório, não tem licença. Repete-se a cada ciclo, a cada resultado negativo, a cada tentativa que não chegou a ser, sem que a sociedade, em geral, reconheça a sua magnitude.

As pessoas continuam a ir trabalhar, a aparecer nos jantares de família, a responder que "está tudo bem" quando não está. E fazem-no sozinhas, na maior parte das vezes, porque não sabem bem como explicar aquilo que estão a viver ou porque já aprenderam que as respostas que recebem ("acontece quando menos se espera", "vá de férias e relaxe") fazem doer mais do que ajudam.

Os reflexos na dinâmica conjugal e na intimidade

No casal, a infertilidade reforça os recursos relacionais quando existem, e as fragilidades quando estão presentes. É comum que cada elemento processe a experiência de forma diferente, um mais orientado para a ação, outro para a emoção, e que essa diferença, sem espaço para ser nomeada, se transforme em distância ou conflito.

A calendarização das relações sexuais com base no ciclo ovulatório tem sido associada à perda de espontaneidade e intimidade na vida sexual, podendo resultar em distanciamento emocional entre os parceiros. A intimidade, que devia ser um refúgio, passa a estar carregada de expectativa e de pressão. E falar sobre isso, mesmo entre os dois, torna-se difícil, porque as palavras certas parecem não existir.

O que a European Society of Human Reproduction and Embryology recomenda

A principal entidade europeia em medicina reprodutiva, a ESHRE, é explícita a este respeito, o acompanhamento psicológico não é um extra opcional, mas parte do cuidado de qualidade em fertilidade. As suas recomendações estruturam-se em três níveis. Primeiro, o apoio emocional de rotina prestado pela equipa médica. Segundo, o aconselhamento focado em decisões e crises. Terceiro, a psicoterapia estruturada para sintomas graves.

Esta posição é partilhada em Portugal por investigadores da Universidade de Coimbra, como Ana Galhardo, Marina Cunha e José Pinto-Gouveia. O trabalho desta equipa, amplamente documentado no repositório institucional, demonstra que o impacto do diagnóstico está profundamente ligado a sentimentos de vergonha, autocriticismo e desregulação emocional. Foi também no seio desta investigação que se desenvolveu o pioneiro Programa Baseado no Mindfulness para a Infertilidade (PBMI).

O papel do suporte psicológico especializado

Na prática clínica, o suporte psicológico foca-se em objetivos práticos: gerir o desgaste da incerteza mensal para que a vida pessoal não fique paralisada, proteger a relação de casal da pressão de engravidar e oferecer um espaço neutro para lidar com decisões difíceis, como gerir exames invasivos, redefinir prazos de tentativas ou decidir que rumo dar ao projeto de parentalidade. Contudo, este contexto exige competências específicas. O psicólogo precisa dominar o impacto emocional que a ausência de gravidez provoca e compreender a linguagem clínica associada à investigação da fertilidade. Por isso, importa procurar profissionais com formação direcionada nesta área, aptos a trabalhar tanto as dores individuais como as dinâmicas da conjugalidade. Iniciar cedo o acompanhamento revela-se consideravelmente mais eficaz do que aguardar pelo limite das forças.

Procura suporte especializado nesta jornada?

Se se identificou com os desafios emocionais descritos ou se sente o desgaste dos tratamentos de PMA a afetar o seu bem-estar ou a sua relação, saiba que pode contar com apoio clínico direcionado.

Consulte a disponibilidade e agende uma consulta de psicologia clínica especializada em infertilidade para construir um espaço seguro de escuta e regulação emocional.

Este artigo tem carácter informativo e não substitui acompanhamento psicológico individualizado.